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Artigos e textos

07 JUN ENCERRAMENTO DA EXPOSIÇÃO SINAL DE FOGO

A exposição Sinal de do Fogo encerra no próximo dia 11 de junho de 2016, com o lançamento do catálogo e uma queima rakú, de redução a gás. Neste processo, peças de cerâmica são retiradas incandescentes do forno com pinças e introduzidas em latões contendo materiais combustíveis, que incendeiam e produzem fuligem. O resultado é imediato e todos ficam emocionados com os sons e os efeitos produzidos. Os convidados podem participar pintando peças, auxiliando na manutenção do fogo, na colocação ou retirada das cerâmicas com as pinças e na lavagem após a queima. Na oportunidade todos os artistas expositores estarão presentes.

Dia 11 de junho, às 15h30

SESI – Av. Cândido de Abreu, 200 – Centro Cívico (mapa)

25 MAIO MARIA HELENA SAPAROLLI – CONTINENTES, CONTEÚDOS

Maria Helena Saparolli é ceramista – a cerâmica, segundo ela, é sua linguagem principal, embora também possua trabalhos com outros materiais como o vidro e o bronze.

Uma informação me foi dada por ela ao inicio do encontro: a cerâmica é Yin e o vidro, Yang. Me rendi, por um breve instante, a buscar na internet alguma informação básica a respeito de taoísmo. Descubro que yin e yang representam dualidade, o que pressupõe complemento. Leio em alguma Wikipedia da vida que, sem qualquer julgamento de importância ou valor, o yin é o princípio feminino, a passividade, a absorção. Já o yang, mais masculino, a atividade. Arrisco numa interpretação simplista compreender que, se nada existe em estado puro, Maria Helena e a cerâmica são complementos que ao atingirem seus extremos manifestam a semente de seu oposto. Vale dar uma olhadinha no tai-chi-tu, um conhecido desenho representativo para adiante no texto localizar (ou misturar por completo) a artista, a cerâmica e as sementes.

O histórico de trabalhos da Mari é extenso. Lecionou no Ateliê de Escultura do Centro de Criatividade – Fundação Cultural de Curitiba durante muitos anos e até se aposentar. Junto ao amigo Elvo Damos cuidou do restauro de painéis de Poty. Trabalhou nos azulejos do MON – cujo tom de amarelo, segundo ela, foi o Niemayer mesmo quem escolheu.

Fomos apresentadas numa segunda feira à noite, por uma amiga em comum. Nosso encontro foi, dias depois, agendado também para uma segunda feira, no mesmo horário. Na ocasião fomos até ela eu e Paulo, como de costume, mas dessa vez acompanhados por uma faringite que resolveu me atacar na sexta feira anterior.

Minha quase ausência de voz pareceu um problema… O prenúncio de querer perguntar e comentar muita coisa e, no esforço da garganta danada, ter de me limitar a algumas intervenções. Logo no início, entretanto, a Mari (como nos habituamos a chamá-la em cópia ao modo íntimo da amiga Luciá) comentou sobre a necessidade que todo ceramista tem de respeitar e de lidar com o comportamento do material, a argila. Quando a secagem acontece rápido demais, por exemplo, o objeto pode trincar. Segundo ela, o material conta o que quer.

Percebi então que a artista entendia do meu sentimento, daquela coisa de ter que fazer caber o desejo dentro das margens do suporte material, modulando sempre a própria voz para o copo (ou o corpo!) não trincar. Pensei frases mais curtas para me expressar e, sem prejuízo, consegui participar satisfatoriamente do encontro. Dei o tempo para minha secagem, rouquidão.

Obrigada, Mari, pelo ensinamento, pelo chá, e pela dica quanto ao escalda-pés – quanto a este último, no decorrer desse texto a tua inclinação às altas temperaturas fará mesmo todo sentido.

Enfim, o ateliê de Maria Helena Saparolli é um lugar de misturas e evoluções. No piso situado ao nível da rua, porta de entrada, ficam algumas das obras prontas. Dos pratos e xícaras, às instalações suspensas. Mas há um processo que antecede o resultado de toda essa beleza acabada e ele acontece, coincidentemente ou não, no andar de baixo, como viesse sempre do sub-solo a matéria que emerge como obra prima.

 

O ateliê também dá ares de laboratório: lá acontece muita pesquisa e experimentação, relacionadas não apenas à argila, mas aos esmaltes e outros processo. Uma artista com certa pinta de cientista. A arte da cerâmica se mistura com o domínio da química. E não sei se química ou alquimia, propriamente. Química, talvez, apenas no sentido da interação Maria Helena e cerâmica; no entrosamento, pois não há fenômenos e processos ali submetidos a uma lei, senão a um componente, a arte. Alquimia, talvez, naquele sentido pelo qual metais se transformam em ouro – a artista não transforma argila em cerâmica? Esse fazer transformador ao qual Maria Helena está tão ligada, conta com um outro elemento – o forno.

A medida da possibilidade criativa é o tamanho do forno – algumas peças devem ser produzidas em módulos para serem queimadas. Antes de passar por ele, a argila sofre a secagem, mas ainda não é cerâmica. As partículas de água existentes no material se alteram e nesse processo de transmutação a plasticidade é perdida irreversivelmente.

Essa transmutação acontece de maneira invisível aos olhos sob altíssima, embora variável, temperatura. Uma vez mais, o exercício da paciência. Como um vôo com duração de longas horas para terras distantes, o ingresso de uma peça ao forno é um percurso que não se interrompe – é apenas ao final do cruzeiro que se chega ao destino, nesse caso, resultado. Quem fica do lado de fora não sabe o que há com àqueles que fazem a viagem, mas sabe que a estrutura metálica, aeronave ou forno, guarda um conteúdo de vida.

Saídas dessa experiência transformadora, as peças contam algo, à sua linguagem tátil e visual. Ainda que a artista se esforce para prever o resultado que determinados esmaltes cores e argilas terão ao serem submetidos a determinados fornos e temperaturas, o processo em seus detalhes foge ao controle. A cor efetiva da peças, a quantidade de retração (redução de tamanho) sofrida – tudo isso guarda certo mistério. Às vezes, alguma peça pode mesmo chegar a explodir!

É difícil ouvir a história da argila covertendo-se em cerâmica sem pensar na metáfora que ela pode representar. Não penso algo como a metáfora da lagarta transformada em borboleta, já que nesse caso não temos um ciclo de vida pré determinado ou naturalmente evolutivo.

Tento moldar (com minhas palavras), uma representação possível: Dentro do forno todas as peças são argila, mas cada peça é única. Haverá um momento crucial no qual uma certa passagem de estado será feita, incontrolável, por maior seja o desejo do artista de que tudo corra exatamente conforme o esperado. Bem, quantas vezes na vida, ou quantos de nós na vida, somos argila dentro do forno ou eterna argila exposta crua ao tempo, a acontecimentos que nos moldem constantemente…

Alguns de nós não decidem nunca uma forma (ou fôrma) a qual assumir. Outros, desde cedo, submetem-se à queima que os torna mais sólidos, determinados, decididos, porém impermeáveis. Há também os que de não aquietar-se argila nem prestar-se aos limites fixos de um corpo, submetem-se ao forno e dentro dele explodem – esses são os mais sensíveis, que fazem-se caco, ao pensar talvez que, como disse Quintana, os espelhos partidos tem muito mais luas. Ao fazer-se estilhaço reforçam as vantagens de ser argila, assim como a coragem necessária ao risco de ser, um dia, cerâmica – rija porém frágil às quedas.

Falando em corpos, os que caem, lembro-me também daqueles que se erguem. Maria Helena dá muito valor ao gesto e movimento do fazer porque nele as ideias ganham um corpo. Para além das metáforas possíveis, a argila é literalmente um material dos mais interessantes. O ponto de “basta, vamos ao forno” deve ser dado pelo artista – caso contrário, é só misturar água e a argila seca volta a ser maleável. O ceramista não vive apenas de paciência e fazer, mas de decisão. E de conformação também. Afinal, depois do forno já não existe possibilidade de deixar de ser vaso para ser instalação, flor, rolinho. Essa conformação a um resultado não é, entretanto, conformismo. Embora continue-se a buscar por aquilo que a criatividade vislumbrou e quis, os chamados “erros” podem ser acolhidos como uma surpresa – o bom do acaso.

Daí porque, talvez, Maria Helena aposte no relativo. O relativo está muito presente em seu trabalho pela ausência de receio na repetição de alguns elementos. Para a artista, para além da diferença entre os indiscutivelmente diferentes, é interessante buscar a sutil diferença entre os iguais – nesse caso a aparente repetição é ainda mais relativa. Não é preciso que o olhar do outro aprove sempre essa escolha já que à fruição da obra por outrem antecede a verdade do artista e, portanto, a honestidade da relação entre o artista e a própria obra – um entendimento do seu querer. Sobre a questão do querer, Maria Helena ensina relatividade por uma nova via: Nem sempre o olhar do outro compreende o nosso querer e é preciso lidar com essa falta, assim como o ceramista lida com outras perdas, nesse caso, das próprias peças, a ensinar também o desapego.

A questão do desapego, contudo, não quer dizer ausência de vínculo. Maria Helena fez a marca do vínculo ao nos falar sobre a presença das sementes em sua obra. Essas marca, feita também com a semente na argila. A semente marca a argila e se eterniza nela, embora não precise brotar e crescer ali para tanto. Pela ressignificação, a qual fazemos o tempo todo, o gesto efêmero do marcar (retorna aqui importância do fazer) é uma espécie de raio X, a silhueta da semente que, uma vez decalque, pode ser ampliada, reproduzida, transformada. A semente tem a carga – Maria Helena a toma para si, devolvendo-a broto, germinação, planta; num estado que é ainda natureza, por mais que as sementes, por vezes, fiquem irreconhecíveis. Algumas transformações, vemos, antecedem – ou dispensam – o forno; acontecem ainda argila, sutil, criativa.

Maria Helena é uma boa colecionadora. Na cadeira que desenvolveu para uma exposição no MON o balanço cerâmico era formado por cartas, ou seja, palavras, destinos, lembranças. Registros, como os poemas apresentados em uma de suas exposições, “Poemas em pratos limpos”. Poemas como os de Pessoa que, feitos lembrança, foram entregues a nós impressos em vidro.

Sementes são inicio, meio e fim. Dentre tantas coleções, a principal de Maria Helena parece mesmo ter a ver com sementes. Pode ser aquela plantada nela pelo pai, bom desenhista, que guardava numa garagem os seus aeromodelos a apresentar o tridimensional. Pode ser aquela plantada pela técnica, a qual aprendida e aprimorada torna-se ferramenta de crescimento – e liberdade. Liberdade. Os pássaros que vivem na região na qual está localizado o ateliê invadem-no sem maior cerimônia, confiantes a despeito das janelas à primeira vista formadoras de uma gigante gaiola branca. Confiante como um desses passarinhos Mari está sempre coletando sementes, fazendo-as germinar lindamente sem saber e – merecidamente – mordendo bons frutos.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotografada: Maria Helena Saparolli
Agradecimento:Luciá Consalter

Publicado em 05/06/2015, por Andressa Barichello (Fotoverbe-se)

primeirasimpressoes

18 MAIO CRÍTICA SÉRGIO KIRDZIEJ

Esta nova fornada de trabalho de Maria Helena Saparolli revela em relação à fornada anterior uma maior ousadia composicional. Antes a artista procurava apenas os efeitos da aglomeração simples dos elementos modulares. Agora propõe novas aglomerações experimentais, qual demiurgo observando em seguida sua evolução natural, controla, limita e redesenha seus desenvolvimentos. É um exercício de vontade estética do criador sobre o que seria a brotação desordenada de colônias de fungos cerâmicos.

Nesta nova fase há também a presença das contra-formas, isto é, as marcas em negativo, as pegadas no barro, ou se quisermos, as fôrmas que geraram as peças modulares, como que atestando a industriosidade da produção. Todo o processo gerador das formas está ali, didaticamente representado. As contra-formas, esticadas em lâminas, ficam ali expondo a porção dialética até agora oclusa da síntese que é o processo-obra total.

Atentando para esta mitopoese plástica, percebemos que a artista, munida de suas peças, oscila entre duas tendências diversas: por um lado suas montagens levam ao efeito meditativo dos jardins zen japoneses, com seus sulcos na areia, seus agrupamentos de seixos, e por outro, bem oposto, lembram a solidez geométrica de algumas composições concretistas – miniaturas naturalistas de um Sério Camargo. Contradição? Talvez, mas lembremo-nos de que a arte é onívora, e se alimentará até suas próprias contradições ao buscar uma solução estética.

Sérgio Kirdziej maio/ 1997

06 MAIO A “DONA” DOS AZULEJOS DE POTY


Responsável junto com Elvo Damos por executar murais e restaurações de obras públicas de Poty Lazzarotto, Maria Helena Saparolli acaba de realizar mais uma obra do muralista

“Parece fácil, não é?”, indaga a ceramista Maria Helena Saparolli, enquanto molda flores de argila líquida com ajuda dos utensílios de cozinha minuciosamente organizados em seu ateliê no bairro Abranches. Esse é apenas um dos inúmeros trabalhos que ela toca ao mesmo tempo. Agora com mais tranquilidade, já que ela começou 2014 com uma das principais “missões” de 2013 cumpridas: terminar mais uma execução de um painel de Poty Lazzarotto.

Intitulado São Lucas 1, o desenho foi trabalhado por ela e pelo fiel escudeiro, o escultor Elvo Damos – os dois são os únicos autorizados pela família Lazzarotto, desde 2002, a montar os painéis de Poty. No caso da clínica médica que encomendou o trabalho (um painel de cerca de 3 metros de dimensão), os proprietários já tinham a gravura do artista, um desenho com o padroeiro dos médicos, de 1998. Entretanto, qualquer mural, seja em espaço público ou privado, é construído apenas com autorização de João Lazzarotto, irmão de Poty.

Na hora de reproduzir os traços de Poty no azulejo, Maria Helena e Damos encaram um processo detalhado. “Procuramos ter o maior respeito para chegar na linha e nos traços dele. Com o original em mãos, discutimos como vamos lidar com o esmalte e a cerâmica”, conta a artista. São vários testes até conseguir as cores exatas – função que, geralmente, fica a cargo de Maria Helena. Damos costuma trabalhar nos traços e linhas para depois, juntos, partirem para os desenhos na cerâmica.

Domínio do processo

No caso do painel com a figura do santo, para formar a figura original do desenho foram pintados vários azulejos de 20 por 20 centímetros. “Você faz ele todo dividido e, depois, os desenhos vão para o forno a 800 graus. É preciso dominar todo o processo para chegar ao resultado”, diz a ceramista, que já passou por alguns “perrengues” com Damos – como o de fazer os azulejos amarelos do Museu Oscar Niemeyer (MON). “Tivemos apenas 45 dias, foi uma correria.”

Tesouros

Maria Helena formou-se em Educação Artística na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), com habilitação em Artes Plásticas, e começou a atuar na área em 1989. Esposa de um médico, mãe de três filhos, também médicos, costuma dizer que ela é a única “certa” da família. “Meus filhos dizem que eu tenho um parafuso a menos, mas acho que é o contrário”, conclui, rindo.

Até o fim de 2012, a artista atuava no Ateliê de Escultura da Fundação Cultural de Curitiba (FCC). Agora aposentada, pode se dedicar exclusivamente ao trabalho autoral e a vários projetos paralelos – o mais recente foram flores de cerâmica que estão em um “jardim” artístico diante do MON, criado com trabalhos de outros 80 artistas.

Tanto os painéis quanto suas novas criações são executadas por horas a fio no ateliê, repleto de obras da artista e de parafernálias necessárias à cerâmica, como os grandes fornos para queima do material. O seu mais novo “brinquedo” é um forno importado dos Estados Unidos, prateado com vermelho, que ela comprou há um ano. “Brinco que o forno é a minha Ferrari. Chega a 1.290 graus de temperatura, nem a cinza sobra”, relata Maria Helena, que vê a cerâmica como algo quase sagrado. “É uma transmutação. Quando o material passa pela queima, é algo mágico, sempre tem o desafio e a apreensão de que, às vezes, estará tudo grudado e não dará certo. Esse hiato quente me atrai. É preciso muito cuidado”, filosofa.

Reportagem: Isadora Rupp

Data: 12/01/2014

Fonte: Gazeta do Povo

04 MAIO MARIA HELENA SAPAROLLI, POR NILZA KNECHTEL PROCOPIAK

Pode parecer estranho relacionar a obra de Maria Helena Saparolli com a pintura Operários de Tarsila do Amaral, que apresenta rostos irmanados pela forma. Esta comparação – entre o trabalho abstrato contemporâneo da escultura e a pintura figurativa modernista de 13 – que se assemelha forçada à primeira vista, ganha corpo à medida em que o olhar perscruta certas analogias descobrindo elementos básicos em comum: o paralelo entre as artistas, ambas mulheres no pleno domínio de suas linguagens expressivas, fica facilitado pela intemporalidade do trabalho de Tarsila – criadora da obra-síntese da antropofagia – e pelo tratamento particular dado pela escultura a cada um dos seus rolinhos modulares de cerâmica.

Mariahelena1Estes, resultado de uma primeira concepção plástica elaborada, uma vez que não existem dois iguais, são utilizados como elementos constitutivos de uma construção formal maior.

Os módulos, apesar de similares, são individualizados segundo seu formato, tamanho, modo de torção. Por estas características é que são escolhidos e especialmente localizados na composição geométrica, como moléculas de um mesmo organismo.

Por conseguinte, todos são únicos, como os rostos celulares em Tarsila. Mas não são formas totalmente livres; todas obedecem planos pré-estabelecidos e tomam seu lugar numa seriação lírica ampliada concebida pela sensibilidade poética. Portanto, ordenadamente, todos os módulos se subjugam ao coletivo, cada qual em seu respectivo lugar, submissos a um poder em grande escala, aglutinados em uma forma total idealizada, que se mostra clean, limpa, organizada e sura de sua conformação.

Por outro lado, as formas estáticas de suas obras escondem uma insuspeitada riqueza dinâmica de troca de forças entre os módulos, que podem ser traduzidas em centrífugas e centrípetas, com trajetórias que sussuram seus diversos entrelaçamentos fugindo ou convergindo ao pessoal. Fica difícil escapar dos parâmetros comparativos, da similaridade entre estes elementos formais e a nossa própria vida, o mundo, seres humanos presos e livres que somos – as pessoas – todos juntos, unidos na crença de um modo completo, limpo, fluido.

Assim, cada peça se resolve em seu espaço interior – seu âmago – donde extrair cor, textura e som, e seu espaço exterior, na sua articulação com o todo.

O uno e o coletivo vêm então assinalar o aspecto fundamental da obra de Maria Helena Saparolli – a dualidade – que é encontrada praticamente em todas as esferas de sua linguagem plástica.

Conflito – diálogo, a todo – a parte, força – contenção emergem em contraste, inclusive nos materiais utilizados, nos quais o artificial se contrapõem ao complementar o natural.

A argila, nascida telúrica, adâmica, se opõem à resina sintética, que, por sua vez – proveniente de invenção manipulada de elementos que aqui estão – não deixa de ser terrestre como todos nós.

Esta simbiose de materiais, que contém um eco de sexualidade – não esquecer que o cilindro e o círculo são metáforas dos sexos – tem como resultado a criação plástica executada por método.

A Resina, que constitui a pausa para respirar necessária a cada módulo, igualmente preenche o espaço de troca recíproca com os demais componentes.

A tensão contida por ela, além de separar, permite a coesão por meio de um fluido luminoso que a todos permeia. é uma questão d forma e conteúdo – proposição básica da estética.
Além disso, a duplicidade é representada simbolicamente, mais uma vez, pela resina, material que, por ser translúcido, parece ser mais frágil, em comparação à cerâmica opaca.

Prosseguindo nas oposições, a peso da terra se situa versus a fragilidade de uma cerâmica trabalhada em altas temperaturas, sensível, musical e cantante.

Cada módulo, que tem seu tempo de elaboração respeitado pela artista, sucede vir a possuir seu tom no mundo etéreo do som, sua cor no mundo físico da forma e cantar sua melodia numa paródia que reúne solidão, união, multidão, impregnados em energias cambiantes.

Em mais um paralelo sonoro, o módulo, por sua própria natureza, soa como se fora uma música a aflorar da terra, do elemento maior de nossa própria constituição – descendentes de Adão.

Cedendo ao fascínio exercido pelo lúdico, a artista também brinca algumas vezes com as seções longitudinais e os cortes circulares dos cilindros, que se intercambiam, em outro dualismo, com a seriedade de seus padrões geométricos pré- existentes – estes sempre remetendo ao intelecto e à organização mental.

Até a intelecção da sua obra de arte contemporânea, que usa da argila como matéria prima, contribui para acentuar o seu contraste com a condição primeva ancestral, do homem primitivo ao moldar a sua cerâmica utilitária, agora transformadora em meio de expressão plástica.

Por último, ao lembrar de como as lacunas entre os módulos são preenchidas pela resina que se interpõe, temos outra síntese dualista: a trama do humano e a estrutura do divino, aqui representadas pela luz que se filtra através do translúcido para criar espaços luminosos, revelando, numa espécie de vitral, uma alma de luz.

Nilza Knechtel Procopiak – 1996

13 JUN ARTE E ARQUITETURA SÃO OS DESTAQUES DO MUSEU OSCAR NIEMEYER

Inaugurado em dezembro de 2002, o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, é o maior complexo museológico da América Latina, impressionando a todos por suas linhas arrojadas e por seu porte majestoso. Criado pelo mestre da arquitetura brasileira que lhe dá nome, o museu tem ainda um diferencial inédito. Este é o primeiro projeto no qual Niemeyer criou, além do projeto arquitetônico, uma obra de arte para compor o conjunto, que é o desenho da mulher presente no painel de azulejos do MON. Em outras obras, Oscar delegava esta tarefa para os artistas plásticos, mas desta vez, ele próprio resolveu criar. O resultado não poderia ser outro: uma obra magnífica.

A partir dos desenhos originais de Niemeyer, o projeto foi entregue às mãos dos artistas plásticos paranaenses Elvo Benito Damo e Maria Helena Saparolli, que mobilizaram toda uma equipe para execução do projeto. O trabalho para o desenvolvimento do painel de azulejo teve início em setembro de 2002 e foi concluído em novembro do mesmo ano. Segundo Maria Helena, o projeto previa um tom especial de amarelo, escolhido por Oscar, que não existia no mercado. Para isso, foi realizada uma série de testes para desenvolver a coloração e colocá-la em escala de produção, pois seriam necessários aproximadamente 25.500 azulejos de mesma cor e tonalidade para a obra.

Todo este trabalho foi desenvolvido por uma equipe de artistas plásticos e teve a participação de uma indústria de Campo Largo (PR), com capacidade e disponibilidade para tal produção. Após a aprovação da tonalidade, iniciou-se a ampliação dos desenhos fornecidos e a produção dos azulejos. Os próximos passos foram a passagem dos desenhos e suas pinturas sobre os azulejos amarelos e a queima. Todos os azulejos que continham desenho foram identificados, para que após essa etapa pudessem ser facilmente “encontrados”. Na seqüência, os painéis foram montados no chão para serem devidamente revisados, corrigidos quando necessário, aprovados e embalados adequadamente e ordenadamente.

O grande desafio enfrentado pela equipe foi o curtíssimo prazo. Para solucionar essa questão, foi montado um projeto de execução que foi cumprido rigorosamente por toda a equipe envolvida. “Foi necessário muito trabalho e disciplina“, lembra Maria Helena, uma vez que, o processo do trabalho com pintura em azulejos envolve basicamente a pintura e a queima, que requer aproximadamente 24 horas para cada fornada. “Foi uma honra poder participar desta grande obra. Sinto um grande prazer e um vazio, fruto do término de uma etapa, como um filho que vai ao mundo agora por conta própria”, finaliza Maria Helena.

Por Brunna Stavis